A fenomenologia da primeiridade, abordada por Lela Queiroz no terceiro dia de aula do Curso de Extensão no DAD-UFRGS, trata de trabalhar com o desconhecido, trata de tirar o chão, provocando o impacto do que não estava dado. E este impacto, essa nova descoberta, essas informações inéditas, uma vez acessadas, imediatamente se engajam num processo de significação simbólica, de forma que, quando um chão é tirado, logo outro se constitui, como se fosse a renovação celular da pele. Quando a camada córnea é tirada, outra já toma o seu lugar, engrossando para ser então a proteção primeira da pele. BMC fala o tempo todo nisso, na repadronização, na substituição de um padrão por outro. Pois quando uma nova informação é descoberta, ela já se torna um padrão, pois reconfigura não só aquela informação, mas todo o complexo que a engendra. O frescor do qual se fala ao tirar o chão, nos tira da possibilidade de cair nos vícios. Pesquisar a mesma coisa uma vida inteira carrega junto o perigo dos vícios, segundo Lela. Permanece a questão, como procurar o frescor num mesmo tema de uma vida inteira, tirando o meu chão, dia após dia? Sei apenas que posso provocá-lo, deixar ele acontecer, e não fazê-lo.
Este assunto da fenomenologia da primeiridade me remeteu àquele meu pensamento sobre a arte como produto de minhas doenças. Num extremo, tirar o chão é driblar os vícios, mas também, e de repente justamente por isso, sair do meu jeitão, onde a minha identidade se perde, ou seja, aquilo que ele já conheço de mim mesma e que a meu respeito afirmo. Tirar esse chão é abdicar do seu modo de fazer as coisas, entregando-se para experiências que vão além do já dado e conhecido, aquilo que temos como ponto de chegada, como certo. É como se eu estivesse acessando meus órgãos e imaginasse um ponto de chegada, um modo certo de fazer, conhecido e imaginado previamente. Com que disposição posso ir além do que imagino, ou ainda, nem sequer chegar lá? É também difícil, se não impossível, saber se estou de fato agindo sobre meu órgão e não sobre uma camada mais superficial. Como sei que eu acessei o mais profundo possível? Se é que esse mais profundo possível existe. Uma camada além sempre continuará sendo além, sendo superficial ainda.
Com meu corpo, sobretudo na visão de BMC, existe um jogo entre o que é objetivo e o que é subjetivo. Segundo Lela, existem leis que regem sobre nossos corpos, como por exemplo, ‘todo organismo vivo respira’. Essas leis seriam coisas dadas, objetivas. Essa objetividade se deixa permear, no entanto, pela subjetividade. Falando agora a partir do meu trabalho, relaciono as metáforas como sendo pertinentes a essa subjetividade. Logo, um jogo entre leis e metáforas. Posso transitar entre as leis através de metáforas. No meu corpo, que funciona segundo leis, mas também segundo meus significados, os caminhos percorridos se organizam produzindo significados, específicos no organismo, na unidade que segrega algo como indivíduo, constituindo a sua subjetividade. Os lugares no corpo agem como mediação do conhecimento, ambiente onde o mundo se articula; da mesma maneira que posso me mover a partir de espaços no corpo e de órgãos, e também vomitar coelhinhos – aliás, o conceito primordial do BMC é o espaço, como espaço de possibilidades, como busca pelo contato no espaço, apesar de ser a urgência no tempo o que faz o ser vivo. Assim, segue-se uma maneira dual de pensamento, que é um dos princípios do BMC (e não dicotômica), em função do dentro e fora, do aqui e ali. Não existe oposição entre eles, como se falaria dentro de um princípio dicotômico, mas de relação. Existe o fora de mim porque eu o vejo a partir do de mim. E o mesmo vale para o caminho inverso, para dentro. A dualidade pode também ser chamada de polaridade, como idéia de complementaridade, que um só existe com o outro, um em relação ao outro. São pares duais ao invés de idéias opostas. Dá para se falar aqui em dialética? Dessa forma o BMC transpõe a idéia de um olhar que detém o objeto como um todo, em absoluto.
O ato de tirar o chão - que não é ação, mas o permitir acontecer – é um treinamento, é exercício, através da repetição e da duração das experiências. Aos poucos é possível tornar mais rápido o processo de acesso ao ‘frescor’.
Colocar-me em situação de risco e mesmo assim permanecer em estado de alerta e escuta, acho que essa de repente é a questão para tirar o meu chão. ENTREGA, PRESENÇA E ESCUTA DESSE MOMENTO. Uma tentativa de driblar o meu hábito, encarando o 'perigoso' e assim abrindo o lastro de possibilidades de movimento.
O processo de produção de conhecimento é algo dinâmico e não cumulativo. No jogo de luz e sombras, sempre uma coisa é luz, e se relaciona com as sombras, mesmo que não claramente. Isso compartilha com a idéia de que o corpo é um todo: é possível focar diferentes pontos, no entanto cada parte interfere no todo, dentro de uma concepção pós-moderna do corpo. E assim posso trabalhar com os meus órgãos ou locais de criação. Mover um órgão não significa só mover a região correspondente, mas observar e criar com o que essa região em movimento faz com o meu corpo todo. E tem mais!! A gente não manda no que a gente ta mandando. Assim como normalmente é impossível mandar nos coelhos.
Não quero que minhas experiências de vida sejam o desvirtuar de meu tema de TCC, também não quero deixar de vivê-las por precisar produzir conhecimento – aliás, acho que o fato de eu hesitar tanto futuramente fazer mestrado ou afins, é por eu ter tanta vontade de viver outras experiências que não a dança... proponho-me, no entanto, uma solução: quero que as coisas todas em mim sejam o TCC, sejam o meu corpo, a minha dança.
Pra que ter medo do meu corpo e das experiências estranhas que vivo? Eu não vou morrer enquanto isso não for preciso, e sendo um dia preciso, isso já não me assusta.
Viver as dores, os prazeres, os desconfortos, os sustos. Agora na vivência realizada na aula da Lela (29.09) eu respirei tudo o que meu corpo precisou, duma maneira que comecei a sentir desconforto, dores, espécie de enjôo. Vi-me então numa encruzilhada: parar ou continuar? Optei por continuar; e o corpo me surpreendeu por resolver ele mesmo o caminho. Agora me dou conta de tudo isso, e que se poupar de experiências que a princípio assustam é bobagem, pois assustam pelo desconhecido, pela falta de chão. Como disse, uma experiência só me causa a morte se for preciso, e se não for preciso morrer, me causam outras novas experiências e novos chãos.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
as coceiras
Por mais que falasse de uma intenção em relação as minhas sensações corpóreas, a idéia que tinha do que seriam essas sensações revelava-se de forma um tanto obscura. Tentadora para identificar, mas ainda distante de alguma compreensão. Agora, depois de me dar conta do corpo como um lugar de lugares de criação de movimento, me dei conta que a sensação corpórea pode ser encarada como uma cosquinha, como se algum espaço vazio dentro de mim vibrasse, por uma maior concentração de energia. As sensações não são necessariamente associadas a sentimentos que podem ser nomeados, elas são sentidas em forma de comichão, de algo que vibra, de algo q se mexe e que precisa ir e vir. Agora tudo ficou mais claro, identifico rapidamente tantas sensações corpóreas já experimentas e que me fizeram mover daquele jeito 'nao sei porque estou me movendo, mas to precisando'. O comicho no peito, o comicho nas mãos, nos ombros, nos pés, no quadril, na coluna toda... uma cosquinha que não cessa nunca e que, bem pelo contrário, só provoca mais coceiras. Foi fundamental acessar na minha memória a experiência com Susana França, durante a apresentação de O Jardim, em agosto no Museu do Trabalho. Nosso figurino foi feito com uma segunda pele cheia de folhas dispostas entre esta e a própria pele. Enquanto eu me movia, algumas folhas caiam. Mais tarde ouvi o comentário de uma pessoa que estava na platéia, não muito familiarizada com dança - mas são justamente essas pessoas que as vezes fazem os melhores comentários - que parecia que eu me movia pra tirar as folhas de mim, pois elas estariam me causando coceiras. Mover-me era uma maneira de aliviar a coceira e ainda tirar aquelas coisas coçantes de mim. Comentário fofo e poético! Mais uma metáfora para a minha coleção.
papo tatá
Após uma conversa com Thaís Alvez sobre o TCC, não só o meu, mas também o dela - finalizado no ano passado - e todo o universo TCC, muitas fichas cairam e outras se mostraram já caídas, e junto a noção de um enorme trabalho ainda em forma de plasma, pronto para ganhar corpo. Mesmo eu não tendo lido seu trabalho, apenas assistido a sua defesa, sei que o seu trabalho é uma grande referência para mim. Não necessariamente no assunto a tratar, mas na maneira de abordá-lo. O TCC é uma grande sacada a respeito de si e o processo de sua elaboração é o que há de mais valioso, muito mais do que uma apresentação ou um trabalho encadernado. Descobrir o que eu faço para dançar; lidar com todo esse meu jeito e continuar dançando, ou justamente em função dele continuar dançando, é uma das grandes questões a tratar nesse caminho por uma dança fresca e honesta.
Explorar os órgãos é o objetivo 'mentira necessidade' essencial para começar a caminhar de alguma forma, só para de alguma maneira dar-me conta que eu danço a partir de lugares. Não importa que sejam órgaos, que sejam músculos ou ossos, importa é que eu estabeleço uma relação direta com partes palpáveis e imagináveis do meu corpo, que é com ele que eu dialogo. De repente dei-me conta que nada me garante que eu esteja de fato acessando um órgão, ou então mesmo alguma outra camada mais superficial, quem sabe com a ilusão de ser um órgão. O que importa, no entanto, não é se estou lá, mas o caminho de ir até lá; e esse caminho nada mais é sublinhar, reforçar e revigorar, um jeito de desbravar o meu corpo para dele tirar dança. a pergunta QUE LUGARES EM MIM CRIAM? é uma das chaves para o meu trabalho, e isso tudo dentro de uma lógica vomitar coelhinhos, ou seja, dando-me conta que os lugares que em mim criam e vomitam coelhos, foram construídos por tudo isso que vivi, todas as referências que colecionei ao longo do caminho, e que tudo isso em mim pode se tornar outras caras a partir de uma investigação minuciosa e entregue de meus jogos.
Questiono-me, volta e meia, o papel de estar sempre aqui sentada em frente ao computador ou ao caderno de anotações nessa tentativa de revelar o que se passa com a minha dança. Se primeiramente escrever livre e sinceramente era o principal objetivo, certo dia me percebi questionando e revoltando-me comigo mesma por eu estar sempre tão envolvidas em atividades que não a dança propriamente dita. Lá, acessando o corpo, escutando, experimentando, suando a camiseta. Esse escrever, esse imaginar, esses planos para um dia começar a me mover tem se cofigurado como principal processo de criação de uma obra. Sabe-se lá de que teor. No entanto, a imagem do meu pensamento em mandala que move o pezinho pra lá e pra cá, f conversando com a Thaís, voltei a me dar conta o quando o meu pensaaz com que as coisas se tranquilizem e voltem para o seu lugar. Em que medida eu treino meu corpo pensando nele? Já sei que posso treinar escobillas mentalmente e saber muito bem quando eu erro e quando eu acerto. E o quanto eu posso ter mais acertos que erros conforme mais eu penso e como isso depois se reflete nos pés. Enfim, se são os músculos que eu preciso treinar para fazer melhor uma escobilla dificil, posso afirmar agora que eu faço isso com o poder da minha mente. Eu faço algo acontecer no meu corpo quando eu aciono instâncias imagéticas e lógicas. Já nem ouso mais falar em instâncias mentais, para não cometer gafes nesses tempo de corpo/mente uma coisa só. O que é isso que funciona na minha cabeça, o que é isso que faz a Mariazinha que tá aqui dentro da minha cabeça dançar? Essa mesma coisa pode fazer um órgão ou qualquer outro lugar dentro de mim mover. Querendo ou não eu vasculho espaços dentro de mim, vasculho por vazios, mínimos que sejam; identifico o encontro de duas camadas, para fazê-las se atritarem e criarem o movimento. Mais uma vem à tona o ensaio com Susana França: era a exploração dos espaços que me fazia mover. Se esses espaços forem órgãos, ou a partir de algum momento começarem a ser órgãos, já não me importa muito agora.
É importante falar sobre a Mariazinha supracitada. Em 2005, ano em que entrei na faculdade, lembro bem como eram frequentes as minhas questões acerca de uma dança fruto de um diálogo do corpo com suas próprias sensações, que levasse em conta o 'sentir o corpo', sem arquitetações mentais de um movimento pronto e nem mesmo a idéia de um gesto que acontece dentro da minha cabeça. Permitindo-me essas maluquices, percebi, durante a temporada de um trabalho com Ìria Barcellos, em que fazia uma improvisação com o repertório do flamenco, que eu me via de fora. Eu conseguia projetar de alguma maneira toda a minha figura se movendo, como se estivesse me vendo de fora, para saber o lugar de cada gesto, a amplitude de cada movimento...dar-me conta disso trouxe-me angústia, mas também ânsias por fazer sumir essa tal Mariazinha que se colocava no canto frontal direito da minha cabeça. A partir de todo o trabalho da educação somática realizado na faculdade, experiências no Grupo de Risco com o Sistema Laban, entre tantas outras coisas que me fizeram voltar o meu olhar para o funcionamento das engenhocas do meu corpo e não mais para o que eu via de mim projetado no espelho, a minha relação com a Mariazinha começou a mudar. Parece que fui vendo ela por outros olhos, por outras camadas, traçando outras relações consigo. Se há um tempo atrás eu declarava a morte à Mariazinha - tadinha! - fazemos agora as pazes. Se um dia ela vai sumir e eu vou acessar diretamente sensações das minhas carnes mais internas sem passar pelo pedágio do cabeção, isso eu não sei. Mas é importante registrar essa mudança e o quanto isso me põe em outro lugar, o quanto explora novos lugares dançantes no meu corpo. O quanto sinto que os lugares em mim são locais de criação.
Seria um caminho mais que sensato ler o trabalho de conclusão da Thaís, visto questões em comum que abordamos. Decidi, no entanto, que não ia lê-lo. Ao menos não antes de finalizar o meu. Temi pelo trabalho dela constituir-se como uma referência demasiadamente forte, e forte não no sentido positivo e de alimento para os meus coelhos, mas de, em alguma medida, acabar tomando a forma de mais um monstro do 'Outro'. Esses Outros que fazem coisas ótimas e que não consigo resistir a ter como certas e absolutamente geniais, da mesma forma como o flamenco tradicional se apresenta. O trabalho de Thaís poderia ter o efeito de mais uma imagem projetada num espelho, seduzindo a seguir caminhos já dados e assim me castrar. O que eu quero que o espeho me mostre e o quanto eu quero ser no espelho algo que não sou. Optei por apostar no coelhinhozinhos que cada um vomita aos pingos à minha volta, para deixar o meu corpo criar os meus. O que Thaís vomita é o que também da boca de outros. Procuro inspirar-me na clareza de aquário do seu trabalho, descrição esta tão lindamente tradiza pelo professor Airton no dia da defesa de Thaís.
Explorar os órgãos é o objetivo 'mentira necessidade' essencial para começar a caminhar de alguma forma, só para de alguma maneira dar-me conta que eu danço a partir de lugares. Não importa que sejam órgaos, que sejam músculos ou ossos, importa é que eu estabeleço uma relação direta com partes palpáveis e imagináveis do meu corpo, que é com ele que eu dialogo. De repente dei-me conta que nada me garante que eu esteja de fato acessando um órgão, ou então mesmo alguma outra camada mais superficial, quem sabe com a ilusão de ser um órgão. O que importa, no entanto, não é se estou lá, mas o caminho de ir até lá; e esse caminho nada mais é sublinhar, reforçar e revigorar, um jeito de desbravar o meu corpo para dele tirar dança. a pergunta QUE LUGARES EM MIM CRIAM? é uma das chaves para o meu trabalho, e isso tudo dentro de uma lógica vomitar coelhinhos, ou seja, dando-me conta que os lugares que em mim criam e vomitam coelhos, foram construídos por tudo isso que vivi, todas as referências que colecionei ao longo do caminho, e que tudo isso em mim pode se tornar outras caras a partir de uma investigação minuciosa e entregue de meus jogos.
Questiono-me, volta e meia, o papel de estar sempre aqui sentada em frente ao computador ou ao caderno de anotações nessa tentativa de revelar o que se passa com a minha dança. Se primeiramente escrever livre e sinceramente era o principal objetivo, certo dia me percebi questionando e revoltando-me comigo mesma por eu estar sempre tão envolvidas em atividades que não a dança propriamente dita. Lá, acessando o corpo, escutando, experimentando, suando a camiseta. Esse escrever, esse imaginar, esses planos para um dia começar a me mover tem se cofigurado como principal processo de criação de uma obra. Sabe-se lá de que teor. No entanto, a imagem do meu pensamento em mandala que move o pezinho pra lá e pra cá, f conversando com a Thaís, voltei a me dar conta o quando o meu pensaaz com que as coisas se tranquilizem e voltem para o seu lugar. Em que medida eu treino meu corpo pensando nele? Já sei que posso treinar escobillas mentalmente e saber muito bem quando eu erro e quando eu acerto. E o quanto eu posso ter mais acertos que erros conforme mais eu penso e como isso depois se reflete nos pés. Enfim, se são os músculos que eu preciso treinar para fazer melhor uma escobilla dificil, posso afirmar agora que eu faço isso com o poder da minha mente. Eu faço algo acontecer no meu corpo quando eu aciono instâncias imagéticas e lógicas. Já nem ouso mais falar em instâncias mentais, para não cometer gafes nesses tempo de corpo/mente uma coisa só. O que é isso que funciona na minha cabeça, o que é isso que faz a Mariazinha que tá aqui dentro da minha cabeça dançar? Essa mesma coisa pode fazer um órgão ou qualquer outro lugar dentro de mim mover. Querendo ou não eu vasculho espaços dentro de mim, vasculho por vazios, mínimos que sejam; identifico o encontro de duas camadas, para fazê-las se atritarem e criarem o movimento. Mais uma vem à tona o ensaio com Susana França: era a exploração dos espaços que me fazia mover. Se esses espaços forem órgãos, ou a partir de algum momento começarem a ser órgãos, já não me importa muito agora.
É importante falar sobre a Mariazinha supracitada. Em 2005, ano em que entrei na faculdade, lembro bem como eram frequentes as minhas questões acerca de uma dança fruto de um diálogo do corpo com suas próprias sensações, que levasse em conta o 'sentir o corpo', sem arquitetações mentais de um movimento pronto e nem mesmo a idéia de um gesto que acontece dentro da minha cabeça. Permitindo-me essas maluquices, percebi, durante a temporada de um trabalho com Ìria Barcellos, em que fazia uma improvisação com o repertório do flamenco, que eu me via de fora. Eu conseguia projetar de alguma maneira toda a minha figura se movendo, como se estivesse me vendo de fora, para saber o lugar de cada gesto, a amplitude de cada movimento...dar-me conta disso trouxe-me angústia, mas também ânsias por fazer sumir essa tal Mariazinha que se colocava no canto frontal direito da minha cabeça. A partir de todo o trabalho da educação somática realizado na faculdade, experiências no Grupo de Risco com o Sistema Laban, entre tantas outras coisas que me fizeram voltar o meu olhar para o funcionamento das engenhocas do meu corpo e não mais para o que eu via de mim projetado no espelho, a minha relação com a Mariazinha começou a mudar. Parece que fui vendo ela por outros olhos, por outras camadas, traçando outras relações consigo. Se há um tempo atrás eu declarava a morte à Mariazinha - tadinha! - fazemos agora as pazes. Se um dia ela vai sumir e eu vou acessar diretamente sensações das minhas carnes mais internas sem passar pelo pedágio do cabeção, isso eu não sei. Mas é importante registrar essa mudança e o quanto isso me põe em outro lugar, o quanto explora novos lugares dançantes no meu corpo. O quanto sinto que os lugares em mim são locais de criação.
Seria um caminho mais que sensato ler o trabalho de conclusão da Thaís, visto questões em comum que abordamos. Decidi, no entanto, que não ia lê-lo. Ao menos não antes de finalizar o meu. Temi pelo trabalho dela constituir-se como uma referência demasiadamente forte, e forte não no sentido positivo e de alimento para os meus coelhos, mas de, em alguma medida, acabar tomando a forma de mais um monstro do 'Outro'. Esses Outros que fazem coisas ótimas e que não consigo resistir a ter como certas e absolutamente geniais, da mesma forma como o flamenco tradicional se apresenta. O trabalho de Thaís poderia ter o efeito de mais uma imagem projetada num espelho, seduzindo a seguir caminhos já dados e assim me castrar. O que eu quero que o espeho me mostre e o quanto eu quero ser no espelho algo que não sou. Optei por apostar no coelhinhozinhos que cada um vomita aos pingos à minha volta, para deixar o meu corpo criar os meus. O que Thaís vomita é o que também da boca de outros. Procuro inspirar-me na clareza de aquário do seu trabalho, descrição esta tão lindamente tradiza pelo professor Airton no dia da defesa de Thaís.
TEXTO DA ANE
Como espantar a preguiça sapateando....
Em tempos de muita leitura e poesia, fui convidada a pôr em palavras a sensação de espantar a preguiça sapateando no Flamenco e para isso tenho q voltar no tempo e em uma época onde pula corda e elástico eram o melhor som que meus pés faziam. Pulava corda sozinha e em conjunto e as vezes antes de dormir também pulava em pensamento ( coisa que faço até hoje com o sapateado); pulava devagar, as vezes rápido e em muitas vezes muito e muito rápido o que nós chamávamos de foguinho. O som dos meus pés batendo no chão continua até hoje em minha mente, esse Tum..tum...tum ( quase uma festa rave). E assim chego com a mesma sensação no Flamenco, é claro que o ritmo mudou, me encanto ouvindo as músicas que antes desconhecidas e hoje tão presente em minha vida como: Bulerias, Fandangos, Tangos, Tientos e muitos outros.
Bem, a preguiça está lá mas, tudo começa na hora de colocar os lindos sapatinhos de boneca, com tachinhas na ponta e no salto, e quando levanto já me sinto poderosa, pois estou mais alta e fazendo barulhos com os pés. Vou para o Tablando me espreguiçando e tentando espantar toda a preguiça matinal; e começa aula e nela o aquecimento com os pés e nele tem início um som constante, onde Maria minha professora diz:
- calcanhar, ponta, golpe, calcanhar, calcanhar, ponta, golpe; e o tempo é marcado com 1,2,3,4 até o 12. Entram as palmas ajudando a marcar este tempo, o ritmo sobe um pouco e tempos e contra tempos fazem parte deste sapateado, em meio de tanto calcanhar e ponta és que surge um som que vai virando música e é feita com os meus pés. Ao mesmo tempo tenho que ( ou tento) manter a postura, ombros baixos, pescoço aparecendo; - Não deixe as costelas saltadas, e mantenha o quadril encaixado também, e por favor e se possível deixe a perna solta - Diz Maria . A perna solta, como?????
De repente o ritmo aumenta muito; ou meus pés vão embolar e cairei no chão, pois com tanto calcanhar, ponta e golpe numa velocidade enorme que a olho nu é impossível identificar o que acontece com os pés, e tenho quase certeza um ser humano normal não consegue fazer isso( aliás acho que os dançarinos Flamencos não são humanos, será que são Duendes? E será que estou me tornando um ?). Ou os meus pés fazem música, e quer saber? fazem mesmo ( bem, é claro que ainda estou aprendendo, e associo o som do meu sapateado com um menino que está mudando a voz, as vezes o som sai fino as vezes grosso, mais sei que esse menino vai virar homem um dia, assim como meu sapateado,na verdade tomara que vire uma mulher com uma voz linda, tipo Estrela, Elis, beyonce, aí desculpe viajei!!!!). O mais legal é que sou um ser humano comum tentando fazer música com os pés, que sensação; mas do que estava falando mesmo, há preguiça, que preguiça?
Ane Monteiro.
02/09/08
Em tempos de muita leitura e poesia, fui convidada a pôr em palavras a sensação de espantar a preguiça sapateando no Flamenco e para isso tenho q voltar no tempo e em uma época onde pula corda e elástico eram o melhor som que meus pés faziam. Pulava corda sozinha e em conjunto e as vezes antes de dormir também pulava em pensamento ( coisa que faço até hoje com o sapateado); pulava devagar, as vezes rápido e em muitas vezes muito e muito rápido o que nós chamávamos de foguinho. O som dos meus pés batendo no chão continua até hoje em minha mente, esse Tum..tum...tum ( quase uma festa rave). E assim chego com a mesma sensação no Flamenco, é claro que o ritmo mudou, me encanto ouvindo as músicas que antes desconhecidas e hoje tão presente em minha vida como: Bulerias, Fandangos, Tangos, Tientos e muitos outros.
Bem, a preguiça está lá mas, tudo começa na hora de colocar os lindos sapatinhos de boneca, com tachinhas na ponta e no salto, e quando levanto já me sinto poderosa, pois estou mais alta e fazendo barulhos com os pés. Vou para o Tablando me espreguiçando e tentando espantar toda a preguiça matinal; e começa aula e nela o aquecimento com os pés e nele tem início um som constante, onde Maria minha professora diz:
- calcanhar, ponta, golpe, calcanhar, calcanhar, ponta, golpe; e o tempo é marcado com 1,2,3,4 até o 12. Entram as palmas ajudando a marcar este tempo, o ritmo sobe um pouco e tempos e contra tempos fazem parte deste sapateado, em meio de tanto calcanhar e ponta és que surge um som que vai virando música e é feita com os meus pés. Ao mesmo tempo tenho que ( ou tento) manter a postura, ombros baixos, pescoço aparecendo; - Não deixe as costelas saltadas, e mantenha o quadril encaixado também, e por favor e se possível deixe a perna solta - Diz Maria . A perna solta, como?????
De repente o ritmo aumenta muito; ou meus pés vão embolar e cairei no chão, pois com tanto calcanhar, ponta e golpe numa velocidade enorme que a olho nu é impossível identificar o que acontece com os pés, e tenho quase certeza um ser humano normal não consegue fazer isso( aliás acho que os dançarinos Flamencos não são humanos, será que são Duendes? E será que estou me tornando um ?). Ou os meus pés fazem música, e quer saber? fazem mesmo ( bem, é claro que ainda estou aprendendo, e associo o som do meu sapateado com um menino que está mudando a voz, as vezes o som sai fino as vezes grosso, mais sei que esse menino vai virar homem um dia, assim como meu sapateado,na verdade tomara que vire uma mulher com uma voz linda, tipo Estrela, Elis, beyonce, aí desculpe viajei!!!!). O mais legal é que sou um ser humano comum tentando fazer música com os pés, que sensação; mas do que estava falando mesmo, há preguiça, que preguiça?
Ane Monteiro.
02/09/08
terça-feira, 23 de setembro de 2008
em mandala
Foi bastante impressionante o efeito desse trabalho sobre meu corpo. Horas de produção foram revelando um corpo com dificuldades de descansar, por ansioso e apaixonado. Corpo cansado, mas cabeça desperta e curiosa. Eis que as sensações corpóreas aumentam o seu lastro de significados, frente essas pequenas percepções de como eu me sinto, de como sinto o meu corpo durante o processo de criação. Sensações não de cunho poético, mas prático. Pura bobagem isso que acabei de falar? Enfim, adiante...
Ao longo da elaboração do TCC me sinto como que permanentemente escrevendo o meu projeto de pesquisa para o TCC. Todo o esforço reflexivo, de leitura e de redação desses 4 meses me deixam cada vez mais apta a finalmente formular uma pergunta, ou várias. Finalmente uma pergunta que faz o meu trabalho ter a necessidade de existir. E assim, resoluçoes se fazem importantes a cada vez, e questioná-las, igualmente. Se num primeiro momento algumas experiências de 'acesso aos órgãos' aconteceram, embora tímidas, de uma hora para outra a casa caiu, e tudo pareceu uma mentira. Felizmente voltei a lê-las, podendo me dar conta que as experiência, como também o seus relatos, tinham o seu valor, embora curtas e tímidas. Por isso mais uma vez se tornou preciso voltar ao trabalho... ou melhor, continuar com o trabalho... com tranqüilidade e sem ansiedade. Inclusive me dei conta que tudo que faria com meu corpo a partir de então, seria lucro. Muita coisa já acontece no meu corpo. Eu sei que eu me movo por lugares, eu danço flamenco. Se quero bailar flamenco fresco e verdadeiro, só preciso tirar o mato e liberar os caminhos para que isso se mostre, isso tudo que eu já tenho, e que por algum motivo não acho legítimo. E também não é uma questão de se sentir pronta, numas de 'é só botar o bloco na rua', mas conhecer caminhos e maneiras de não estagnar em caminhos e maneiras.
Da última vez que tentei experimentar alguma coisa sozinha, em casa, o momento antecedeu um ataque de fúria, que depois descambou num surto eufórico que durou um final de semana... acho que as coisas não foram bem porque eu já estava eufórica demais e minha condição não permitia trabalhos mais intimistas como são os que vinha me propondo a fazer. Foi útil sim para um brainstorm, para questionar, para me invocar com o meu trabalho e começar a cuspir todos aqueles questionamentos, que acabaram por ser essa guinada do final de semana. O grito de liberdade, se é que dá pra dizer assim. Pode ser que de uma forma mais objetiva o projeto não tenha mudado, mas internamente eu sei que coisas mudaram...surgiu uma tranqüilidade e um desejo de se assumir e agora uma leve noção de saber como isso pode ser feito.
Voltei então a apostar nos laboratórios. Sabia que preciso insistir neles, mas agora sei que posso e devo levar em consideração o que são as sensações corpóreas que antes eu tanto evocava como sendo de um conto de fadas. Elas não necessariamente vem como reação a uma música ou evocado pelo movimento de algum órgãos, mas vem também pelas situações nas quais colocamos o nosso corpo sem exatamente levar em conta que o está sendo defrontado com uma situação é o corpo. Que atropelar o corpo faz ele gritar, e esse grito também é uma sensação. As sensações são doídas, são ruins por muitas vezes e quero agora me propor a contemplá-las com todo o desespero que lhe cabe e não só me desesperar. Sim, o desespero vem, mas preciso recebê-lo e cuidar dele com carinho. Mas será que aí ele não deixa de ser desespero?
Como posso fazer esse desespero virar flamenco?
O que quero mostrar para a banca, qual é o meu trabalho final? Não acho que o trabalho escrito tenha que dar conta ou de alguma forma justificar o meu trabalho prático, mas acho sim que o trabalho escrito e o processo de pesquisa culminam numa obra para o dia 2 de dezembro - ou seja lá qual for. Inclusive não acho que a obra tenha que falar do processo, mas ser um resultado. O meio é um, o fim não se sabe... Por exemplo, se exploro os órgãos e faço isso durante todo um semestre como processo de pesquisa corporal para a sensibilidade e o auto-conhecimento de minhas reações e jeito de lidar comigo e com a minha arte, além de todo o blábláblá, posso chegar lá na hora e não forçar a barra pra ficar acionando essas coisas em cena? Isso é uma pergunta bem importante... Porque forçar a barra já tem o seu meio pé na mentira. Posso me permitir que o meu corpo seja o resultado de um processo, seja lá em que termos e medidas? Isso já não é preguiça de novo? Acho que preguiça não, acho que mais uma leve pulga atrás da orelha de que qualquer intenção mais cheia de esforços para se mostrar perca sua verdade. Os esforços existem, mas eles têm uma medida, assim como o baile flamenco. Odeio sair para assistir flamenco e acabar vendo teatro. No entanto, não deixa de ser verdadeiro um esforço por seguir tarefas ou por exprimir coisas ainda não tão corporificadas quanto um trejeito de família. Se me proponho como dramaturgia a acessar a todo custo algum órgão, em cena, e lidar com isso, com o que vem e vai de turbulência e transformar isso em dança, já é uma obra. Dessa maneira começo a pensar numa obra que se faz em função da existência de um público, assim como aconteceu com o Sobre Vomitar Coelhinhos. Porque se existe uma sensação necessária numa situação de apresentação, esta é a provocada pela presença do público ali me assistindo.
Acabei de me dar conta que eu penso em círculos. Como uma mandala. Eu não sou capaz de assumir uma idéia e defendê-la até o fim, fico clareando e percebendo todos os lados e ângulos e poréns em cima de uma mesma questão. Se isso parece uma virtude até certo ponto, evitando que em alguma medida eu me cegue dentro de convicções, torna-se difícil assumir uma proposta e assim trilhar um caminho de certezas, nem que por alguns instantes. Um passo que seja. Nem precisa vir o próximo. Mas aí esse pé que quer dar um passo fica ali tateando, sacando tudo o que tem na volta, analisando cada ângulo, cada porém, cada ruim, cada bom, cada por quê, mas não se decide por onde vai, que direção que assume. O pé fica nessa dancinha! Que não é nada mal para uma bailarina, acho.
Ao longo da elaboração do TCC me sinto como que permanentemente escrevendo o meu projeto de pesquisa para o TCC. Todo o esforço reflexivo, de leitura e de redação desses 4 meses me deixam cada vez mais apta a finalmente formular uma pergunta, ou várias. Finalmente uma pergunta que faz o meu trabalho ter a necessidade de existir. E assim, resoluçoes se fazem importantes a cada vez, e questioná-las, igualmente. Se num primeiro momento algumas experiências de 'acesso aos órgãos' aconteceram, embora tímidas, de uma hora para outra a casa caiu, e tudo pareceu uma mentira. Felizmente voltei a lê-las, podendo me dar conta que as experiência, como também o seus relatos, tinham o seu valor, embora curtas e tímidas. Por isso mais uma vez se tornou preciso voltar ao trabalho... ou melhor, continuar com o trabalho... com tranqüilidade e sem ansiedade. Inclusive me dei conta que tudo que faria com meu corpo a partir de então, seria lucro. Muita coisa já acontece no meu corpo. Eu sei que eu me movo por lugares, eu danço flamenco. Se quero bailar flamenco fresco e verdadeiro, só preciso tirar o mato e liberar os caminhos para que isso se mostre, isso tudo que eu já tenho, e que por algum motivo não acho legítimo. E também não é uma questão de se sentir pronta, numas de 'é só botar o bloco na rua', mas conhecer caminhos e maneiras de não estagnar em caminhos e maneiras.
Da última vez que tentei experimentar alguma coisa sozinha, em casa, o momento antecedeu um ataque de fúria, que depois descambou num surto eufórico que durou um final de semana... acho que as coisas não foram bem porque eu já estava eufórica demais e minha condição não permitia trabalhos mais intimistas como são os que vinha me propondo a fazer. Foi útil sim para um brainstorm, para questionar, para me invocar com o meu trabalho e começar a cuspir todos aqueles questionamentos, que acabaram por ser essa guinada do final de semana. O grito de liberdade, se é que dá pra dizer assim. Pode ser que de uma forma mais objetiva o projeto não tenha mudado, mas internamente eu sei que coisas mudaram...surgiu uma tranqüilidade e um desejo de se assumir e agora uma leve noção de saber como isso pode ser feito.
Voltei então a apostar nos laboratórios. Sabia que preciso insistir neles, mas agora sei que posso e devo levar em consideração o que são as sensações corpóreas que antes eu tanto evocava como sendo de um conto de fadas. Elas não necessariamente vem como reação a uma música ou evocado pelo movimento de algum órgãos, mas vem também pelas situações nas quais colocamos o nosso corpo sem exatamente levar em conta que o está sendo defrontado com uma situação é o corpo. Que atropelar o corpo faz ele gritar, e esse grito também é uma sensação. As sensações são doídas, são ruins por muitas vezes e quero agora me propor a contemplá-las com todo o desespero que lhe cabe e não só me desesperar. Sim, o desespero vem, mas preciso recebê-lo e cuidar dele com carinho. Mas será que aí ele não deixa de ser desespero?
Como posso fazer esse desespero virar flamenco?
O que quero mostrar para a banca, qual é o meu trabalho final? Não acho que o trabalho escrito tenha que dar conta ou de alguma forma justificar o meu trabalho prático, mas acho sim que o trabalho escrito e o processo de pesquisa culminam numa obra para o dia 2 de dezembro - ou seja lá qual for. Inclusive não acho que a obra tenha que falar do processo, mas ser um resultado. O meio é um, o fim não se sabe... Por exemplo, se exploro os órgãos e faço isso durante todo um semestre como processo de pesquisa corporal para a sensibilidade e o auto-conhecimento de minhas reações e jeito de lidar comigo e com a minha arte, além de todo o blábláblá, posso chegar lá na hora e não forçar a barra pra ficar acionando essas coisas em cena? Isso é uma pergunta bem importante... Porque forçar a barra já tem o seu meio pé na mentira. Posso me permitir que o meu corpo seja o resultado de um processo, seja lá em que termos e medidas? Isso já não é preguiça de novo? Acho que preguiça não, acho que mais uma leve pulga atrás da orelha de que qualquer intenção mais cheia de esforços para se mostrar perca sua verdade. Os esforços existem, mas eles têm uma medida, assim como o baile flamenco. Odeio sair para assistir flamenco e acabar vendo teatro. No entanto, não deixa de ser verdadeiro um esforço por seguir tarefas ou por exprimir coisas ainda não tão corporificadas quanto um trejeito de família. Se me proponho como dramaturgia a acessar a todo custo algum órgão, em cena, e lidar com isso, com o que vem e vai de turbulência e transformar isso em dança, já é uma obra. Dessa maneira começo a pensar numa obra que se faz em função da existência de um público, assim como aconteceu com o Sobre Vomitar Coelhinhos. Porque se existe uma sensação necessária numa situação de apresentação, esta é a provocada pela presença do público ali me assistindo.
Acabei de me dar conta que eu penso em círculos. Como uma mandala. Eu não sou capaz de assumir uma idéia e defendê-la até o fim, fico clareando e percebendo todos os lados e ângulos e poréns em cima de uma mesma questão. Se isso parece uma virtude até certo ponto, evitando que em alguma medida eu me cegue dentro de convicções, torna-se difícil assumir uma proposta e assim trilhar um caminho de certezas, nem que por alguns instantes. Um passo que seja. Nem precisa vir o próximo. Mas aí esse pé que quer dar um passo fica ali tateando, sacando tudo o que tem na volta, analisando cada ângulo, cada porém, cada ruim, cada bom, cada por quê, mas não se decide por onde vai, que direção que assume. O pé fica nessa dancinha! Que não é nada mal para uma bailarina, acho.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
primeiros escritos: quais sao minhas teorias, meus achismos?
Uma das minhas primeiras tarefas lançadas pela minha orientadora foi escrever a respeito de minhas teorias. E isso numa proposta tri com gostinho de proibido, aquela de poder sair afirmando coisas mil sem ter que se preocupar com referências, de onde saiu, quem afirmou, com base em que... Eis alguns trechos que recupero e comento relacionando um pouco com o momento pós chute no balde.
"Os órgãos possuem a capacidade de sustentação interna. As células compõem tecidos, estes os órgãos. Cada célula possui a propriedade de respiração celular que garante o seu tônus e consequentemente o tônus dos órgãos que compõe. Entendo por tônus uma sustentação própria, pressão tridimensional do órgão, para todos os sentidos, excêntrica e concêntrica, e que interfere diretamente sobre a sustentação e energia da estrutura musculo-esquelética. Não é somente a musculatura que sustenta nossa estrutura óssea, também o tônus muscular nos dá essa noção de volume e recheio e nos mantém em pé. A idéia de irradiação está igualmente associada a isso. Cada célula irradia, e assim cada órgão e assim o corpo todo.
Posso associar esse tônus à oposição centro de força (quadril) e centro de leveza (peito). Se os órgãos da região abdominal, sobretudo, exercem essa pressão tridimensional, pressionam quadril e pernas em direção ao solo; e peito, braços e cabeça em direção ao céu. Isso fez muito sentido pensando a relação do corpo do flamenco que busca ao menos tempo terra e ar. O centro de força em direção ao chão, associado aos fatores de combate (forte, súbito e direto) e o centro de leveza buscando 'el aire', que não é leveza, mas que é fluxo de energia sem bloqueios, que se sustenta sem preguiça e sem esforço aparente.
Segundo Cohen, é possível sensibilizar os órgãos e iniciar movimentações a partir deles, ou ao menos trabalhar com essa imagem. Identificam-se suas funções e percebe-se que a iniciação do movimento se faz a partir deles. Estes movimentos, no entanto, não são meramente naturais e involuntários, precisam ser trabalhados através de um processo de conscientização da pessoa em relação a seus órgãos, pois estes se tornam acessíveis através desse trabalho. O que ocorre é que um movimento que poderia ser feito pelas camadas mais periféricas, como os ossos, pode ser iniciado pelos órgãos mais profundos, expressando-se pelo movimento conseqüente do osso. Essa mudança de foco mudará também a qualidade do movimento. Além disso, “trabalha-se a percepção dos diferentes estados de espírito e as sensações que emergem dos diferentes locais de iniciação do movimento.” (COHEN, 1993) Essas sensações e estados de espírito que Bonnie aponta como importantes nessa abordagem do movimento é que serão uma porta de entrada para o início do meu processo."
Muito legal como experienciar a raiva e o desespero como possibilidade para a minha pesquisa corporal me trouxe uma outra compreensão de tudo o que já tinha escrito e lido antes: as sensações como porta de entrada, percepção dos diferentes estados de espírito etc... Certo que não estarei sempre tranquila, ainda mais mexendo em tanta coisa; o quão pobre seria um trabalho que só conhecesse os caminhos fáceis para a auto-percepção. Além de pobre seria uma baita mentira!
Já identificar no meu corpo as sensações mais gritantes de pavor e furungar nelas, como proponho no parágrafo logo abaixo, acho agora um pouco viajandão demais, o quanto isso é possível. Como podemos ter controle sobre sensações muito fortes e com cara de destrutivas. Apesar de que essas sensações são sempre tão tematizadas no flamenco e era justamente esse o mistério inicial que suscitou todo o meu problema de pesquisa. Lembrei agora da JuPrestes dizendo que, em outras palavras, que a explosão do flamenco, o duende ou coisa assim, não é sentar e esperar que algo baixe, que algo ilumine, é muito trabalho e concentração. É de alguma forma explodir com controle. Contemplar um "descontrole" de sensações e jogar com elas, rindo da cara delas ou desafiando a sério. Uiuiui, será que isso já não é só poesia de novo?
"Acredito que se eu observar como o meu corpo percebe um estímulo e onde no meu corpo ele é sentido, eu possa acessar os órgãos envolvidos nessa sensação e que trabalhando esse órgão posso potencializar sensações e ações frente a esse estímulo para me mover. Mover-me não porque a coreografia pré-estabelecida está mandando, mas porque o corpo pede assim. Até que ponto posso tornar meu corpo assim tão autônomo de minhas vontades racionalizadas, fica a questão a ser debatida. Como posso deixar meu corpo em cena com o frescor de uma sensação percebida ali? O que é uma sensação percebida ali? Se eu acessar e trabalhar os órgãos envolvidos numa sensação corpórea eu consigo provocar sensações similares no público que me assiste? Acho que quero deixar o público sujeito a exatamente as mesmas coisas que eu, como uma forma de inserir na obra aqueles que me assistem."
Quais são as sensações percebidas ali? Isso é uma questão que me remete mais uma vez aos coelhinhos. Antes da estréia nós experimentamos apenas uma vez o que era a nossa obra. E isso aconteceu num ensaio aberto, nunca qualquer coisa foi experimentada de fato, fora do terórico e imaginado, antes disso. Parecia que precisávamos de todas as condições que fazem parte da experiência de apresentação para poder experimentar qualquer coisa, e a principal condição era a presença do público. Por mais que coisas sejam simuladas e testadas, parece que só o público pode levar uma obra de arte para além da esfera técnica e operacional. Só o público coloca no corpo do artista outras condições, outras sensações, e que, para algumas obras mais, para outras menos, fazem tanta diferença. Para Sobre Vomitar Coelhinhos o público era crucial, claro que muito em função da sua dramaturgia. Mas se faço agora um paralelo com o meu trabalho, pensando o flamenco, por mais que eu possa me deixar envolver pela música e por outros estímulos, a presença de um público provoca coisas que são únicas da experiência e que podem fazer o papel de passar a rasteira nas previsões de sensações (inclusive rasteiras positivas) ou podem também ser tema de pesquisa, como tem acontecido com as inclinações do meu trabalho. De nada adianta eu pensar em ser honesta se eu durante todo o processo não contar com as sensações que o público me provoca, porque senão chega na hora, posso muito bem começar a mentir. E posso mesmo, porque já fiz isso tantas vezes!
"Minha pergunta é: Como posso transformar sensações em movimento, através de uma atenção aos órgãos?
Meu objetivo é: dançar porque o corpo precisa, não porque foi combinado
Eu sinto saudade de: dançar com o meu irmão
Eu não quero: subir no palco e só perceber que estou num palco
O corpo é metáfora. O corpo biológico não existe. A realidade é metáfora.
Csordas: olhar somático na antropologia" Tá aí o Csordas com quem ainda vou aprender a jogar!
"Essa conclusão, que não é minha, mas construção científica e filosófica, surgiu por eu me dar conta o quão cética eu estava sobre toda essa idéia de movimentação dos órgãos. Explicar o corpo não é científico, é poético, é cultural, tanto quanto movimenta-lo.
Quando me deparei com o Body-Mind Centering e com a sugestão de que podemos ativar uma movimentação a partir dos órgãos, imaginava que existiria uma verdade a respeito das vísceras humanas que me colocasse em diálogo com a fisiologia. Podemos afinal mover nossos órgãos? Mas como se meus órgãos não são constituídos por tecido muscular? Comecei assim a lidar com uma idéia de tônus visceral, que os órgãos possuem um tônus em função da respiração celular. E que essa “energização” de um órgão teria tais ou tais efeitos sobre o meu corpo.
Sabemos que a respiração e o tônus muscular e visceral interferem nos fluxos do nosso corpo, como sangue e linfa. Eles têm papel fundamental na circulação venosa e linfática de retorno, por exemplo. Mas até onde vai um corpo fisiológico? Ele não existe sem metáforas.
Como interferir no tônus visceral pode repadronizar fluxos energéticos no meu corpo, interferir no meu estado de presença e alerta e na minha movimentação?
“A partir do momento em que bloqueamos ou dificultamos nossa respiração interna, começamos a matar nossa sensibilidade, a intuição, todo o corpo.” (Klauss Vianna)
Isso agora é super palpite: uma das diferenças entre a medicina ocidental e oriental é que o saber ocidental se construiu muito sobre corpos mortos – abrindo um corpo podiam ter uma visão das camadas mais internas do corpo e assim desenhar em detalhes cada parte do corpo e assim intereferir em absoluto sobre a imagem de como somos por dentro, o desenho de cada órgão, como ele se parece etc. Entre os orientais o corpo não é sangrado. Seu conhecimento se estruturou sob observação de corpos vivos e da energia em fluxo, resultando em terapias como acupuntura, shiatsu entre outras. Todo esse conhecimento oriental não deixa de ser mais uma forma de ver o corpo, de descrevê-lo; outras metáforas. Assim como também faz a medicina ocidental: metáforas através de desenhos, de mapas. Metáforas que são compartilhadas culturalmente. Em que medida não é preciso crer no processo de cura ou de descrição para que essas imagens operem no corpo de forma a se reequilibrar? É preciso crer no remédio para que ele cure, o que me leva a questão do doente no papel central para a cura, não mais o médico. Da mesma forma, o público se insere em minha obra de arte, uma vez que minhas metáforas podem de alguma forma ser compartilhadas.
O entendimento que temos do nosso corpo formula e reflete nossa visão de mundo. A bipedia e a postura ereta, por exemplo, colocam a cabeça como centro vital e de maior importância que nossos pés – assim como a pirâmide é a abstração de uma visão de mundo aristotélica.
“Nosso objetivo é compreender as relações entre a consciência e a na tureza orgânica, psicológica ou mesmo social” (Merleau-Ponty)
Nossas crenças, posturas, memórias e imagens são nossos coelhos e nossos coelhos interferem.
Assim como o corpo e os seus órgãos em movimento são metáfora, vomitar um corpo de dentro do outro também. Sobre Vomitar Coelhinhos também trata de uma metáfora, vomitar um coelho é uma metáfora, metáfora do nosso processo criativo, não só enquanto prática artística consciente e voluntária, mas também de nosso estar-no-mundo, incluindo tudo o que jogamos no mundo sem perceber. Porque só a nossa presença já interfere, já causa sensações. As interferências voluntárias e involuntárias nossas são os nossos coelhos. Vomitá-los pode ser automático e sem querer, ou doído e mesmo assim vital.
Assim como nós interferimos no outro, nossos próprios coelhos são o resultado das interferências alheias. É como sentimos o que o outro nos vomita. Dessas sensações criamos os nossos.
Criar um coelho é como gerar um bebê. Célula após célula elas se multiplicam e se acumulam. De um acumulado de células temos um bebê no útero. No estômago, o mesmo acontece com os coelhos. Referência após referência, elas se acumulam. De um mexido transforms estomacal das referências temos o nosso coelho. Que é dos outros, mas é meu, para em seguida ser dos outros de novo. Não estamos sozinhos nisso. Nada criamos do nada, somos o nosso arredor, o nosso mundo é nós. Dessa forma a noção de autoria se borra, mas de uma outra forma se afirma. O que é meu é só meu porque foi de outros, porque também é de outros. E por ser meu ele é único, único em mim e em meio a todos. É meu porque passou por mim e se transformou. Cabe aqui uma idéia de ancestralidade.
(...)
O que provoca no público o meu trabalho corporal que se desenvolve a partir dessa proposta dos órgãos? Ele potencializa a minha capacidade de comunicação? Vomitar o corpo. Um corpo de dentro do outro. O que esse corpo faz com o corpo de quem me assiste?
UMA IMAGEM: um amontoado de coelhos e no meio um duende. Porque um duende também precisa ser vomitado.
Vomitar coelhinhos é afirmar o corpo como local de criação. Que lugares em mim criam? Aqui, posso falar de lugares enquanto órgãos?
Como tu deixa o movimento acontecer? como tu deixa um coelho se formar? Como tu aprende a não trancar o fluxo? Sabendo que tudo isso acontece dentro de ti... Essas questões me levam a técnica de release, que consiste basicamente em identificar o fluxo e deixa ele acontecer."
"Os órgãos possuem a capacidade de sustentação interna. As células compõem tecidos, estes os órgãos. Cada célula possui a propriedade de respiração celular que garante o seu tônus e consequentemente o tônus dos órgãos que compõe. Entendo por tônus uma sustentação própria, pressão tridimensional do órgão, para todos os sentidos, excêntrica e concêntrica, e que interfere diretamente sobre a sustentação e energia da estrutura musculo-esquelética. Não é somente a musculatura que sustenta nossa estrutura óssea, também o tônus muscular nos dá essa noção de volume e recheio e nos mantém em pé. A idéia de irradiação está igualmente associada a isso. Cada célula irradia, e assim cada órgão e assim o corpo todo.
Posso associar esse tônus à oposição centro de força (quadril) e centro de leveza (peito). Se os órgãos da região abdominal, sobretudo, exercem essa pressão tridimensional, pressionam quadril e pernas em direção ao solo; e peito, braços e cabeça em direção ao céu. Isso fez muito sentido pensando a relação do corpo do flamenco que busca ao menos tempo terra e ar. O centro de força em direção ao chão, associado aos fatores de combate (forte, súbito e direto) e o centro de leveza buscando 'el aire', que não é leveza, mas que é fluxo de energia sem bloqueios, que se sustenta sem preguiça e sem esforço aparente.
Segundo Cohen, é possível sensibilizar os órgãos e iniciar movimentações a partir deles, ou ao menos trabalhar com essa imagem. Identificam-se suas funções e percebe-se que a iniciação do movimento se faz a partir deles. Estes movimentos, no entanto, não são meramente naturais e involuntários, precisam ser trabalhados através de um processo de conscientização da pessoa em relação a seus órgãos, pois estes se tornam acessíveis através desse trabalho. O que ocorre é que um movimento que poderia ser feito pelas camadas mais periféricas, como os ossos, pode ser iniciado pelos órgãos mais profundos, expressando-se pelo movimento conseqüente do osso. Essa mudança de foco mudará também a qualidade do movimento. Além disso, “trabalha-se a percepção dos diferentes estados de espírito e as sensações que emergem dos diferentes locais de iniciação do movimento.” (COHEN, 1993) Essas sensações e estados de espírito que Bonnie aponta como importantes nessa abordagem do movimento é que serão uma porta de entrada para o início do meu processo."
Muito legal como experienciar a raiva e o desespero como possibilidade para a minha pesquisa corporal me trouxe uma outra compreensão de tudo o que já tinha escrito e lido antes: as sensações como porta de entrada, percepção dos diferentes estados de espírito etc... Certo que não estarei sempre tranquila, ainda mais mexendo em tanta coisa; o quão pobre seria um trabalho que só conhecesse os caminhos fáceis para a auto-percepção. Além de pobre seria uma baita mentira!
Já identificar no meu corpo as sensações mais gritantes de pavor e furungar nelas, como proponho no parágrafo logo abaixo, acho agora um pouco viajandão demais, o quanto isso é possível. Como podemos ter controle sobre sensações muito fortes e com cara de destrutivas. Apesar de que essas sensações são sempre tão tematizadas no flamenco e era justamente esse o mistério inicial que suscitou todo o meu problema de pesquisa. Lembrei agora da JuPrestes dizendo que, em outras palavras, que a explosão do flamenco, o duende ou coisa assim, não é sentar e esperar que algo baixe, que algo ilumine, é muito trabalho e concentração. É de alguma forma explodir com controle. Contemplar um "descontrole" de sensações e jogar com elas, rindo da cara delas ou desafiando a sério. Uiuiui, será que isso já não é só poesia de novo?
"Acredito que se eu observar como o meu corpo percebe um estímulo e onde no meu corpo ele é sentido, eu possa acessar os órgãos envolvidos nessa sensação e que trabalhando esse órgão posso potencializar sensações e ações frente a esse estímulo para me mover. Mover-me não porque a coreografia pré-estabelecida está mandando, mas porque o corpo pede assim. Até que ponto posso tornar meu corpo assim tão autônomo de minhas vontades racionalizadas, fica a questão a ser debatida. Como posso deixar meu corpo em cena com o frescor de uma sensação percebida ali? O que é uma sensação percebida ali? Se eu acessar e trabalhar os órgãos envolvidos numa sensação corpórea eu consigo provocar sensações similares no público que me assiste? Acho que quero deixar o público sujeito a exatamente as mesmas coisas que eu, como uma forma de inserir na obra aqueles que me assistem."
Quais são as sensações percebidas ali? Isso é uma questão que me remete mais uma vez aos coelhinhos. Antes da estréia nós experimentamos apenas uma vez o que era a nossa obra. E isso aconteceu num ensaio aberto, nunca qualquer coisa foi experimentada de fato, fora do terórico e imaginado, antes disso. Parecia que precisávamos de todas as condições que fazem parte da experiência de apresentação para poder experimentar qualquer coisa, e a principal condição era a presença do público. Por mais que coisas sejam simuladas e testadas, parece que só o público pode levar uma obra de arte para além da esfera técnica e operacional. Só o público coloca no corpo do artista outras condições, outras sensações, e que, para algumas obras mais, para outras menos, fazem tanta diferença. Para Sobre Vomitar Coelhinhos o público era crucial, claro que muito em função da sua dramaturgia. Mas se faço agora um paralelo com o meu trabalho, pensando o flamenco, por mais que eu possa me deixar envolver pela música e por outros estímulos, a presença de um público provoca coisas que são únicas da experiência e que podem fazer o papel de passar a rasteira nas previsões de sensações (inclusive rasteiras positivas) ou podem também ser tema de pesquisa, como tem acontecido com as inclinações do meu trabalho. De nada adianta eu pensar em ser honesta se eu durante todo o processo não contar com as sensações que o público me provoca, porque senão chega na hora, posso muito bem começar a mentir. E posso mesmo, porque já fiz isso tantas vezes!
"Minha pergunta é: Como posso transformar sensações em movimento, através de uma atenção aos órgãos?
Meu objetivo é: dançar porque o corpo precisa, não porque foi combinado
Eu sinto saudade de: dançar com o meu irmão
Eu não quero: subir no palco e só perceber que estou num palco
O corpo é metáfora. O corpo biológico não existe. A realidade é metáfora.
Csordas: olhar somático na antropologia" Tá aí o Csordas com quem ainda vou aprender a jogar!
"Essa conclusão, que não é minha, mas construção científica e filosófica, surgiu por eu me dar conta o quão cética eu estava sobre toda essa idéia de movimentação dos órgãos. Explicar o corpo não é científico, é poético, é cultural, tanto quanto movimenta-lo.
Quando me deparei com o Body-Mind Centering e com a sugestão de que podemos ativar uma movimentação a partir dos órgãos, imaginava que existiria uma verdade a respeito das vísceras humanas que me colocasse em diálogo com a fisiologia. Podemos afinal mover nossos órgãos? Mas como se meus órgãos não são constituídos por tecido muscular? Comecei assim a lidar com uma idéia de tônus visceral, que os órgãos possuem um tônus em função da respiração celular. E que essa “energização” de um órgão teria tais ou tais efeitos sobre o meu corpo.
Sabemos que a respiração e o tônus muscular e visceral interferem nos fluxos do nosso corpo, como sangue e linfa. Eles têm papel fundamental na circulação venosa e linfática de retorno, por exemplo. Mas até onde vai um corpo fisiológico? Ele não existe sem metáforas.
Como interferir no tônus visceral pode repadronizar fluxos energéticos no meu corpo, interferir no meu estado de presença e alerta e na minha movimentação?
“A partir do momento em que bloqueamos ou dificultamos nossa respiração interna, começamos a matar nossa sensibilidade, a intuição, todo o corpo.” (Klauss Vianna)
Isso agora é super palpite: uma das diferenças entre a medicina ocidental e oriental é que o saber ocidental se construiu muito sobre corpos mortos – abrindo um corpo podiam ter uma visão das camadas mais internas do corpo e assim desenhar em detalhes cada parte do corpo e assim intereferir em absoluto sobre a imagem de como somos por dentro, o desenho de cada órgão, como ele se parece etc. Entre os orientais o corpo não é sangrado. Seu conhecimento se estruturou sob observação de corpos vivos e da energia em fluxo, resultando em terapias como acupuntura, shiatsu entre outras. Todo esse conhecimento oriental não deixa de ser mais uma forma de ver o corpo, de descrevê-lo; outras metáforas. Assim como também faz a medicina ocidental: metáforas através de desenhos, de mapas. Metáforas que são compartilhadas culturalmente. Em que medida não é preciso crer no processo de cura ou de descrição para que essas imagens operem no corpo de forma a se reequilibrar? É preciso crer no remédio para que ele cure, o que me leva a questão do doente no papel central para a cura, não mais o médico. Da mesma forma, o público se insere em minha obra de arte, uma vez que minhas metáforas podem de alguma forma ser compartilhadas.
O entendimento que temos do nosso corpo formula e reflete nossa visão de mundo. A bipedia e a postura ereta, por exemplo, colocam a cabeça como centro vital e de maior importância que nossos pés – assim como a pirâmide é a abstração de uma visão de mundo aristotélica.
“Nosso objetivo é compreender as relações entre a consciência e a na tureza orgânica, psicológica ou mesmo social” (Merleau-Ponty)
Nossas crenças, posturas, memórias e imagens são nossos coelhos e nossos coelhos interferem.
Assim como o corpo e os seus órgãos em movimento são metáfora, vomitar um corpo de dentro do outro também. Sobre Vomitar Coelhinhos também trata de uma metáfora, vomitar um coelho é uma metáfora, metáfora do nosso processo criativo, não só enquanto prática artística consciente e voluntária, mas também de nosso estar-no-mundo, incluindo tudo o que jogamos no mundo sem perceber. Porque só a nossa presença já interfere, já causa sensações. As interferências voluntárias e involuntárias nossas são os nossos coelhos. Vomitá-los pode ser automático e sem querer, ou doído e mesmo assim vital.
Assim como nós interferimos no outro, nossos próprios coelhos são o resultado das interferências alheias. É como sentimos o que o outro nos vomita. Dessas sensações criamos os nossos.
Criar um coelho é como gerar um bebê. Célula após célula elas se multiplicam e se acumulam. De um acumulado de células temos um bebê no útero. No estômago, o mesmo acontece com os coelhos. Referência após referência, elas se acumulam. De um mexido transforms estomacal das referências temos o nosso coelho. Que é dos outros, mas é meu, para em seguida ser dos outros de novo. Não estamos sozinhos nisso. Nada criamos do nada, somos o nosso arredor, o nosso mundo é nós. Dessa forma a noção de autoria se borra, mas de uma outra forma se afirma. O que é meu é só meu porque foi de outros, porque também é de outros. E por ser meu ele é único, único em mim e em meio a todos. É meu porque passou por mim e se transformou. Cabe aqui uma idéia de ancestralidade.
(...)
O que provoca no público o meu trabalho corporal que se desenvolve a partir dessa proposta dos órgãos? Ele potencializa a minha capacidade de comunicação? Vomitar o corpo. Um corpo de dentro do outro. O que esse corpo faz com o corpo de quem me assiste?
UMA IMAGEM: um amontoado de coelhos e no meio um duende. Porque um duende também precisa ser vomitado.
Vomitar coelhinhos é afirmar o corpo como local de criação. Que lugares em mim criam? Aqui, posso falar de lugares enquanto órgãos?
Como tu deixa o movimento acontecer? como tu deixa um coelho se formar? Como tu aprende a não trancar o fluxo? Sabendo que tudo isso acontece dentro de ti... Essas questões me levam a técnica de release, que consiste basicamente em identificar o fluxo e deixa ele acontecer."
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